ANO VI - NÚMERO 02 - BOLETIM DE FEVEREIRO/26

 BOLETINS DE OCORRÊNCIAS DE FEVEREIRO DE 2026

Destaques: Jornalistas sofrem ameaças e intimidações em AL, AM, DF, MT, PA e RN. Juiz censura jornal alagoano.  

JUDICIAIS

Maceió (AL) – O jornal Tribuna do Sertão, de Palmeira dos Índios, por decisão do juiz Erick Costa de Oliveira Filho, da 10ª Vara Cível, teve que retirar do site e das redes sociais uma reportagem sobre investimentos do Instituto de Previdência dos Servidores de Maceió (Iprev) em ativos do Banco Master.

A medida resultou de ação movida pelo prefeito João Henrique Caldas (JHC), pois a matéria o mencionava no contexto das discussões sobre investimentos públicos relacionados ao caso do Banco Master. Segundo o texto, Maceió aparece entre as cidades que mais destinaram valores a esse tipo de aporte, mostrando dados já divulgados por outros veículos e discutidos publicamente, com foco na gestão de recursos e no volume dos investimentos realizados. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) protestou em 12 de fevereiro contra a censura ao veículo, reiterando que a reportagem foi baseada em documentos e se refere a assunto de interesse da sociedade, por envolver gestão de dinheiro público. Cabe recurso.

São Paulo (SP) – O blogueiro Paulo Cezar Prado, do blog do Paulinho, deve indenizar em R$ 10 mil o delegado-geral da Polícia Civil, Artur Dian, por decisão em recurso ao Tribunal de Justiça (TJ-SP). A justiça entendeu que foram sem provas as acusações feitas por Prado sobre o envolvimento do policial com crime organizado e casa de apostas. O TJ-SP manteve sentença de agosto de 2025 da juíza Raquel de Andrade, da 20ª Vara Cível de São Paulo. Além da indenização, ele teve que remover do seu blog duas reportagens com referência a Dian.

Belém (PA) - O jornalista Adriano Wilkson comemorou, em 26 de setembro, a derrubada da determinação judicial que havia retirado do ar vídeos citando o prefeito Igor Normando e proibido novas reportagens sobre ele. A decisão, ainda provisória, foi do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), A ação movida pelo prefeito tinha como alvo uma reportagem sobre medidas aprovadas em 2025, conhecidas como “Pacote de Maldades” (Lei nº 10.266/26), e determinava a remoção de quatro vídeos das redes sociais, além da proibição de novas publicações sobre o tema. Ao analisar o recurso, Fux entendeu que a decisão da Justiça paraense configurava censura prévia ao trabalho jornalístico. Com isso, Wilkson está autorizado a retomar a produção de reportagens sobre o prefeito.

NORDESTE

Natal (RN) - O repórter Rogério Fernandes e o cinegrafista Maurício Teixeira, da TV Ponta Negra, afiliada do SBT no RN, foram agredidos durante a cobertura de um incêndio, em 4 de fevereiro.
Uma câmera de segurança flagrou o momento em um homem atacou a dupla com tapas e chutes, quando os profissionais mostravam, ao vivo, os danos provocados pelo incêndio. Segundo apuração, o indivíduo ainda não identificado supôs estar sendo filmado e atacou os jornalistas de forma violenta.

Coité do Nóia (AL) – Diversos jornalistas foram surpreendidos em 4 de fevereiro com intimidações, ameaças e tentativas de silenciamento em muitos momentos na cobertura, em um ginásio, do velório das vítimas do capotamento de ônibus de romeiros. A situação chegou a tal ponto que o secretário municipal de Cultura colocou a mão em uma câmera de TV durante um “ao vivo”, insinuando que o prefeito tinha “mandado acabar com a transmissão”. A cena constrangeu até mesmo os telespectadores, que ficaram sem entender o motivo. Depois disso, tentaram retirar os jornalistas do ginásio, muitos deles moradores do município. Em outro momento, houve coação de uma equipe de jornalistas que tentava gravar uma reportagem sobre a nota da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que confirmava a falta de documentação necessária do ônibus que transportava os romeiros. Eles foram cercados por assessores do município, em um ato sem explicação. O acidente ocorreu nas primeiras horas da manhã do dia anterior e mobilizou equipes de resgate de diversos órgãos. As vítimas retornavam de uma romaria ao município de Juazeiro do Norte, no Ceará, quando o ônibus em que viajavam tombou às margens da rodovia AL-220, no Povoado Caboclo, em São José da Tapera, no sertão alagoano. 15 pessoas morreram ainda no local. O ônibus transportava cerca de 60 passageiros e seguia com destino final a Coité do Nóia. O Sindicato dos Jornalistas de AL repudiou a forma como o prefeito Bueno Higino orientou sua equipe no atendimento à imprensa. 

Natal (RN) – O jornalista Fernando Azevêdo, da Tribuna do Norte, foi alvo de uma série de ataques nas redes sociais, em 18 de fevereiro, durante transmissão de carnaval. A publicação de um vídeo na cobertura do bloco Os Cão, na Redinha, desencadeou uma série de ataques virtuais com mensagens feitas no perfil do jornal e ofensas à aparência do jornalista.  As mensagens citavam características físicas de Azevedo, em tom de deboche, para questionar a atuação do profissional. Autoridades locais e entidades de classe se solidarizaram com Azevêdo. 

NORDESTE

Belém (PA) - O repórter Sérgio Manoel e o cinegrafista Márcio Júnior, da TVC Pará, afiliada da TV A Crítica, foram agredidos em 11 de fevereiro enquanto realizavam a cobertura de um homicídio na Travessa Barão do Triunfo, entre as avenidas Duque de Caxias e Visconde de Inhaúma. Os profissionais foram atacados por desconhecidos que também quebraram o equipamento de trabalho da equipe, mesmo com a presença de autoridades no local. As agressões teriam partido de pessoas ligadas a um escritório localizado em frente ao local do crime, que teriam reagido de forma violenta à presença dos jornalistas durante a cobertura.

Manaus (AM) – O jornalista Leonardo Fierro, diretor de comunicação da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa/AM), sofreu tentativa de homicídio, em 16 de fevereiro, após um agressor quebrar uma garrafa para atingí-lo nas dependências da Escola de Samba Reino Unido da Liberdade, da qual ele é sócio. Fierro foi abordado por Fabrício Nascimento (conhecido como “Calcinha”), que o agrediu com um soco no peito sob a acusação infundada de que o profissional teria “prejudicado” a agremiação. Sob ameaças e empunhando uma garrafa quebrada, o agressor tentou ferir o jornalista, sendo acompanhado por outros dois homens armados com objetos cortantes. A tragédia só foi evitada graças à intervenção de terceiros, como a diretora Elza Oliveira e o intérprete “Buiu” do Reino. No Boletim de Ocorrência, Leonardo Fierro relatou que a violência foi diretamente incitada por discursos do presidente da agremiação, Rangel Magalhães, e do vice-presidente, Thomé Mestrinho, que acusaram os profissionais de manipulação de resultados, transferindo à imprensa a frustração pelo desempenho da escola.

CENTRO-OESTE

Cuiabá (MT) - O jornalista Lázaro Thor, do PNB Online, foi humilhado e intimidado pelo governador Mauro Mendes (União) durante coletiva em 18 de fevereiro. Na entrevista, o político ameaçou processar o jornalista após uma pergunta sobre o pagamento de R$ 308 milhões à Oi, via fundos do Banco Master. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram que o governador teria se exaltado ao ser questionado sobre o escândalo, apontando o dedo e sugerido ao profissional que recorresse à Justiça. O político mandou que o jornalista “assinasse” a declaração de que os fundos que receberam o dinheiro do Estado pertenceriam ao pai do secretário da Casa Civil, Fábio Garcia, o empresário Robério Garcia. Em resposta, o jornalista informou que já havia assinado a informação, como autor da primeira reportagem sobre o assunto.

Brasília (DF) - A repórter Manuela Borges, do ICL Notícias, foi cercada e intimidada em 24 de setembro por cerca de 20 servidores ligados a gabinetes de deputados de oposição ao governo federal, no Salão Verde da Câmara dos Deputados. O episódio ocorreu durante um pronunciamento de parlamentares, com críticas ao desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente da República, no Carnaval do Rio de Janeiro. O grupo passou a filmá-la com celulares, gritar e apontar dedos, impedindo que a jornalista fizesse seu trabalho. A confusão teve início logo após Manuela questionar os parlamentares sobre outdoors instalados no DF contendo imagens de Michelle Bolsonaro e da deputada Bia Kicis (PL).

Segundo a jornalista, a atividade anunciada como coletiva de imprensa não abria espaço para perguntas. Manuela tentou insistir na abordagem ao líder da oposição, Cabo Gilberto Silva (PL). “Eu falei: ‘líder, eu tenho uma pergunta’. Ele disse que depois responderia, mas simplesmente todos saíram e deixaram a gente lá”, disse. A repórter decidiu então seguir os parlamentares até a área interna do Partido Liberal (PL), onde voltou a pedir espaço para questionamento. A pergunta tratava de possíveis práticas de campanha antecipada. “Eu perguntei: ‘os senhores estão falando que o presidente  já está fazendo campanha antecipada, mas em todo o Distrito Federal tem outdoors com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. Isso também não seria campanha antecipada?’”, relatou. Foi nesse momento que, de acordo com a jornalista, teve início a confusão. “Vieram esses assessores botando o celular na minha cara, encostando em mim, me oprimindo e não deixando eu fazer o meu trabalho de jornalista”, completou. Os servidores ligados aos gabinetes de deputados da oposição cercaram a jornalista. Em uma cena caótica, vários celulares foram posicionados a poucos centímetros do rosto de Manuela. O grupo passou a gravá-la com os celulares e a gritar. Outras pessoas ao redor filmavam as cenas. A repórter também criticou a postura de um dos deputados presentes. “O deputado Coronel Chrisóstomo (PL) começou a berrar, gritar, cuspir, enquanto o pessoal atrás me apertava. Eu dizia ‘dá licença, dá licença’”, relatou. Outro ponto destacado foi a reação dos policiais legislativos que acompanhavam a movimentação. “Os policiais legislativos todos olhando. Depois, quando saí do meio da confusão, vieram apertar minha mão, mas não fizeram nada para interferir”.

.................

Fontes: ARI (www.ari.org.br), ABI (www.abi.org.br), Fenaj (www.fenaj.org.br), ANJ (www.anj.org.br), Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br), Abert (www.abert.org.br), Abraji (www.abraji.org.br), Portal Imprensa (www.portalimprensa.com.br), Rede em Defesa da Liberdade de Imprensa (www.liberdadedeimprensa.org.br), Portal Coletiva (www.coletiva.net), Portal dos Jornalistas (https://www.portaldosjornalistas.com.br/), Jornalistas & Cia (https://www.jornalistasecia.com.br/),  https://mediatalks.uol.com.br, Consultor Jurídico (https://www.conjur.com.br/areas/imprensa) e outras instituições e entidades de defesa do livre exercício da profissão de jornalista.

Pesquisa e edição: Vilson Antonio Romero (RS)

vilsonromero@yahoo.com.br

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ANO V - NÚMERO 07 - BOLETIM DE JULHO/25

ANO V - NÚMERO 06 - BOLETIM DE JUNHO/25

BO 28/07/25 - ECA-USP CONCEDE TITULO DE DOUTOR HONORIS CAUSA IN MEMORIAN A VLADO