ANO VI - NÚMERO 10 - BOLETIM DE OUTUBRO/26
BOLETINS DE OCORRÊNCIAS DE OUTUBRO DE 2026
Destaques: CDJor denuncia quase sete mil ataques à imprensa no segundo turno das eleições. Veículos e profissionais são agredidos e intimidados em SP, BA, DF, RJ, PA e SC.
SUDESTE
São Paulo (SP) – O monitoramento da Coalizão em Defesa
do Jornalismo (CDJor) revela que a violência contra a imprensa ganhou força
nas redes sociais após o primeiro turno das eleições de 2026. Entre 5 e 17 de
outubro, foram identificados 6.901 ataques a jornalistas e veículos de comunicação
no X e no Instagram, uma média de cerca de 531 agressões por dia. Os dados
fazem parte do quinto levantamento da CDJor, realizado pelo Laboratório de
Internet e Ciência de Dados (Labic), da Universidade Federal do Espírito
Santo (UFES). Desde o início do monitoramento, em 16 de agosto, a média diária de
ataques cresceu 182,6%, evidenciando como a violência digital contra a
imprensa se intensificou ao longo da campanha eleitoral. Dos registros identificados no
início do segundo turno, 4.307 ocorreram no Instagram e 2.594 no X. A violência
também alcançou um número maior de profissionais: 142 jornalistas foram
atingidos, o maior contingente entre os cinco levantamentos realizados até então. Além
deles, 152 veículos de comunicação apareceram entre os alvos, destacando-se o
Grupo Globo. No Instagram, a TV Globo recebeu 530 ataques, seguida
pelo jornal Folha de S.Paulo (238), GloboNews (205), Estadão (167) e O Globo (134).
As mensagens frequentemente buscavam desacreditar a cobertura
jornalística por meio deacusações de parcialidade, insultos e ataques pessoais. Entre os profissionais mais atingidos no Instagram estavam Míriam Leitão, com 131 ataques, e Renata Lo Prete, com 65. O levantamento também identificou ofensas misóginas e mensagens de incentivo à violência física e à morte, demonstrando que parte das agressões ultrapassou as acusações de parcialidade e atingiu diretamente a segurança das profissionais. Antes do primeiro turno, entre 16 de agosto e 4 de outubro, a CDJor identificou 14.182 ataques contra jornalistas e veículos de comunicação no X e no Instagram. A violência se intensificou com a aproximação da votação. A média diária passou de 188 ataques no início da campanha para 327 nos oito dias que antecederam o primeiro turno, um crescimento de aproximadamente 74%. Ao todo, foram analisadas cerca de 3,7 milhões de publicações e comentários nas duas plataformas.
Rio de Janeiro (RJ) - O Grupo Globo anunciou em 15 de outubro o desligamento de Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, após a divulgação de conversas privadas mantidas pelo executivo com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo a própria Globo, as mensagens, trocadas entre outubro de 2023 e julho de 2025 e às quais a empresa afirma ter tido acesso em 14 de outubro, revelam uma “relação inadequada” de Kachar com um
anunciante. Kachar estava há 29 anos no Grupo Globo e ocupava uma posição estratégica na área de mídia. Sob sua responsabilidade estavam a Editora Globo, com títulos como O Globo, Extra, Valor Econômico, Vogue Brasil e Marie Claire, além do Sistema Globo de Rádio, que inclui a CBN. Os diálogos divulgados mostram que a relação entre os dois ultrapassava contatos estritamente comerciais e incluía conversas sobre publicidade, patrocínios, eventos, pessoas de interesse do banqueiro e reclamações relacionadas à cobertura jornalística. Um dos episódios
revelados nas mensagens envolve Martha Graeff, então companheira de Vorcaro. O banqueiro procurou Kachar para tentar obter espaço para ela nas revistas da Editora Globo e chegou a pedir uma capa da Vogue Brasil.
Rio de Janeiro (RJ) - O Brazil Journal anunciou em 22 de outubro o afastamento de Flávio Carneiro da sociedade e de suas funções executivas no veículo. A decisão, que partiu do próprio empresário, ocorre após o vazamento de conversas entre Carneiro e Daniel Vorcaro, do Banco Master. Em editorial intitulado “Um dia triste”, o Brazil Journal escreveu que, “ao longo dos últimos cinco anos, Flávio contribuiu decisivamente para o crescimento comercial e estratégico do grupo”, mas seus diálogos com Vorcaro colocam “em risco a credibilidade do veículo”. Flávio Carneiro tinha participação societária no Brazil Journal por meio de sua empresa Foone. Em 2023, Geraldo Samor, fundador do site, criou a BJ Conteúdo, empresa de vídeos e eventos do Brazil Jornal, e a Foone ficou com 49,86%. Através dessa participação, Vorcaro mantinha contato direto com Carneiro e marcava reuniões com Samor. Segundo apurações, o fundador do Brazil Journal enviava textos que abordavam a atuação do Master para que Vorcaro analisasse e pedisse
eventuais correções antes de publicá-los. Vale lembrar que o mesmo Flávio Carneiro era também investidor das publicações IstoÉ e IstoÉ Dinheiro. Em mensagens com Vorcaro, Carneiro chegou a conversar sobre pautas de capa e a exclusão de conteúdos que seriam prejudiciais para o banqueiro. A Entre Investimentos e Participações, dona da IstoÉ Publicações, pertence ao empresário Antônio Carlos Freixo Junior, apontado como operador financeiro de Vorcaro e
que atuou como intermediador de repasses financeiros do Banco Master para a produção do filme “Dark Horse”, que retrata a campanha eleitoral à Presidência da República em 2018.
Rio de Janeiro (RJ) - A repórter Bette Lucchese e o cinegrafista Henrique Lima, da TV Globo, foram hostilizados por manifestantes pró-Flávio Bolsonaro, durante ato realizado em 24 de outubro. Enquanto trabalhavam para informar a população sobre o ato, eles foram cercados por manifestantes e hostilizados e agredidos verbalmente durante diversos minutos. A equipe de reportagem precisou ser cercada por seguranças e policiais militares enquanto os manifestantes, aos gritos, xingavam a TV Globo, ironizavam os jornalistas e tentavam interferir no seu trabalho.
NORDESTE
Vitória da Conquista (BA) – A jornalista Victória Lôbo, diretora e cofundadora do
Conquista Repórter e conselheira da Associação de Jornalismo Digital (Ajor), e o
repórter Afonso Ribas têm recebido, desde 5 de outubro, ameaças e agressões
através do Whatsapp, Instagram e X (antigo Twitter). Os comentários xenofóbicos
contra a jornalista e o povo baiano, além de ofensas misóginas surgiram depois que
o Conquista Repórter publicou um editorial em defesa da reeleição do atual
Presidente da República. A partir daí, os dados pessoais da jornalista foram
expostos e ela passou a receber, de números desconhecidos, mensagens com
ataques racistas e misóginos. Afonso Ribas também foi alvo de ofensas
homofóbicas. Nos dias seguintes, os ataques se tornaram ameaças diretas à
integridade física da jornalista, e um boletim de ocorrência foi registrado.
CENTRO-OESTE
Brasília (DF) – A repórter Débora Sena, do canal Auri Verde Brasil, enquanto
entrava ao vivo no jornal matinal, em 30 de outubro, teve seu trabalho
interrompido de forma intimidatória pela Polícia Legislativa da Câmara dos
Deputados. Segundo Débora, os policiais foram chamados por servidores da
Câmara e questionaram se a jornalista teria credencial para trabalhar do local.
NORTE
Belém (PA) - Os jornalistas Lucas Contente e Gustavo Baima, do Portal Cidade 091, foram agredidos fisicamente e tiveram equipamento de trabalho retirado à força em 23 de outubro, no Porto Bom Jesus, enquanto faziam uma reportagem sobre denúncias de descumprimento do decreto que garante gratuidade no transporte intermunicipal para eleitores no segundo turno das eleições. As agressões foram comandadas pelo diretor de operações da Navegação Bom Jesus,
Raimundo Rebelo, tio do deputado estadual Luth Rebelo e irmão do ex-prefeito de Breves, Luiz Rebelo, proprietários da empresa de transporte fluvial. Os profissionais foram ao porto para apurar denúncias de que a Navegação Bom Jesus estaria se recusando a conceder passagens gratuitas aos eleitores. Durante a tentativa de obter a versão da empresa, os jornalistas foram expulsos do local. As imagens mostram a equipe sendo hostilizada, o equipamento de trabalho sendo retirado à força e as agressões físicas. Lucas Contente chega a ser derrubado no chão. Os repórteres registraram boletim de ocorrência.
SUL
Brusque (SC) - O fotógrafo Vitor de Souza Dias, do Portal Visão Mais, foi
hostilizado, durante a cobertura da apuração das eleições, no diretório do Partido
Liberal (PL), na noite de 25 de outubro. Ao captar imagens das reações dos
presentes durante a apuração, passou a sofrer agressões verbais, sendo chamado
de “bandido” e cercado por um grupo de homens, passando em seguida para
ameaças físicas. O jornalista só conseguiu deixar o local após ser acolhido por um
casal que o levou em segurança para casa.
JUDICIAIS
Sorocaba (SP) - A Ponte Jornalismo sofreu intimidação por parte do Ministério Público de SP (MPSP). Em 5 de outubro, o portal havia publicado a reportagem “No inquérito sobre sua morte, artista é alvo de investigação e PMs são vítimas”, em que o jornalista Pedro Stropasolas relata o andamento da investigação da morte de Reginaldo Ferreira Júnior, conhecido como África Menor, por policiais militares. O repórter encaminhou, durante a apuração, um pedido de informações relacionadas ao caso por meio da assessoria de imprensa do MPSP, com a
finalidade de retratar diferentes versões sobre os fatos. A resposta chegou após a publicação, em um documento do promotor Antônio Farto Neto que não respondeu às questões formuladas, pois a investigação tramita sob segredo de justiça. Foi além: questionou se a Ponte Jornalismo seria de fato um veículo de comunicação e determinou que o documento fosse encaminhado para o Delegado
de Polícia para investigação em conjunto com o inquérito. O promotor faz referência ao veículo como “meio de comunicação desconhecido” e questiona a possibilidade de se tratar de organização “se travestindo de jornalista para buscar informações sigilosas do procedimento em benefício de criminosos”.
São Paulo (SP) - O jornal O Estado de S. Paulo ingressou em 20 de outubro com
uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) solicitando que a Justiça impeça a
plataforma Meta de excluir ou bloquear conteúdos jornalísticos publicados no
Facebook e no Instagram pelo Estadão. O pedido busca evitar que a plataforma
repita o que aconteceu no primeiro turno das eleições, quando ao menos 31
postagens de reportagens do Estadão no Instagram foram excluídas de forma
arbitrária. As exclusões afetaram publicações feitas entre as 72 horas que
antecederam o dia de votação e as 24 horas seguintes. Os conteúdos excluídos
continham desde postagens sobre resultados de pesquisas de intenção de voto,
passando por textos sobre deputados eleitos ainda no primeiro turno, entre outros
temas.
Fortaleza (CE) – A jornalista Inês Aparecida, do podcast As Cunhãs, está sendo
processada cível e criminalmente pelo ex-deputado federal e ex-policial militar
Capitão Wagner (União Brasil), candidato derrotado ao Senado. As ações
questionam comentários feitos pela jornalista em um episódio do podcast, em julho
de 2026, sobre a trajetória política de Wagner e sua relação com o senador Cid
Gomes. O ex-parlamentar alega ter sido ofendido e cobra reparação por danos
Morais.
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Fontes: ARI
(www.ari.org.br), ABI (www.abi.org.br), Fenaj (www.fenaj.org.br), ANJ
(www.anj.org.br), Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br),
Abert (www.abert.org.br), Abraji (www.abraji.org.br), Portal Imprensa
(www.portalimprensa.com.br), Rede em Defesa da Liberdade de Imprensa
(www.liberdadedeimprensa.org.br), Portal Coletiva (www.coletiva.net), Portal
dos Jornalistas (https://www.portaldosjornalistas.com.br/), Jornalistas &
Cia (https://www.jornalistasecia.com.br/), https://mediatalks.uol.com.br,
Consultor Jurídico (https://www.conjur.com.br/areas/imprensa) e outras
instituições e entidades de defesa do livre exercício da profissão de
jornalista.
Pesquisa e edição:
Vilson Antonio Romero (RS)
vilsonromero@yahoo.com.br



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